2019

 

Performance pública

e inserção em video do

Prêmio PIPA 2019

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Trabalhadores da arte é fruto de uma inquietação antiga sobre as condições laborais na arte, que surge primeiro como um trocadilho em um caderno: “O boleto sempre vence”. 

Ao vir a público no feriado do Dia do Trabalhador, na forma de uma ação entre amigos que remete a uma passeata esvaziada, a frase ganha outros contornos semânticos. Para aqueles que presenciam a ação na rua, sem qualquer indicação clara de seu propósito, pode-se aludir à aparente falta de propósito das jornadas de trabalho: trata-se de pagar contas que, invariavelmente, retornarão no mês seguinte. Já para o público que tem acesso ao registro fotográfico da ação, apresentada como “obra”, ela remete a uma prática recorrente na arte contemporânea: a desvinculação entre retorno simbólico e financeiro como contrapartida ao trabalho artístico.  

É urgente perguntar-se qual o real lugar da arte na organização do mundo do trabalho. Pois a manutenção de certa visão romântica, segundo a qual realização pessoal e remuneração financeira são incompatíveis, situa hoje o artista na vanguarda de um capitalismo eminentemente simbólico e cujo maior ativo é a criatividade. Além disso, garante a perpetuação de um meio da arte excludente e elitista, reduzido àqueles poucos que, contando com fontes alternativas de renda, podem seguir adiante recebendo apenas aplausos. Essa incongruência se expressa também na tipografia utilizada na faixa: disponibilizada gratuitamente na internet pelo designer Frazer Price, a fonte tira seu nome e seus contornos irregulares de pichações feitas em caçambas de lixo: Rubbish.

Mas o essencial de Trabalhadores da arte não está na faixa, nem na ação ou em seu registro, senão na própria frase. Repetir, uma e outra vez, “O boleto sempre vence” significa olhar para o que fazemos todos os dias em nossos escritórios, estúdios e ateliês de forma crua: isto é, uma atividade historicamente reservada a um grupo de privilegiados, mas não como um privilegio em si, não como uma realidade contra a qual não valha a pena lutar. Assim como os boletos.