Estados de emergência | Oficina Cultural Oswald de Andrade, SP

01/09 a 15/12/18

O Paço das Artes - instituição da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo - inaugura dia 1º de setembro às 11h “Estado(s) de Emergência”, exposição com curadoria de Priscila Arantes e Diego Matos. Depois das bem sucedidas exibições de “ISSOÉOSSODISSO” de Lenora de Barros em 2016 e “O ciclo da intensidade” de Charly Nijensohn em 2017, a mostra, que fica em cartaz até 15 de dezembro de 2018, é o resultado de mais uma parceria entre o Paço das Artes - que desde 2016 não conta com uma sede própria - e a Oficina Cultural Oswald de Andrade.

Entre idéias de reinvenção e de resistência inerentes à arte contemporânea, “Estado(s) de Emergência” busca conectar os fios soltos da arte brasileira por meio de tentativas atuais em recontar um passado recente do país e repensar um presente onde a violência, a censura e o preconceito ainda permanecem tão latentes quanto nos anos da ditadura civil-militar. A exposição apresenta trabalhos desenvolvidos a partir dos anos 2000 que, segundo os curadores, “são pesquisas e produções artísticas protagonistas que buscam lançar luz sobre a memória dos anos do regime de exceção”. Tal reverberação, demarcada nas estratégias artísticas dos selecionados, caracteriza em parte a produção recente da arte brasileira, de uma geração na qual a maioria nasceu nos anos da redemocratização, caracterizada por um “desassombramento” e olhar prospectivo de quem viveu no auge da já decadente Nova República brasileira. 

Com instalações em vídeo, objetos como mobiliário, cartões postais, documentos e registros, a mostra conta com quatorze obras, duas de artistas estrangeiros: “Lo que queda” da argentina Gabriela Golder e o potente “Los durmientes” de Enrique Ramírez, uma videoinstalação sobre as centenas de corpos lançados ao mar entre os anos de 1974 e 1978 durante o governo de Augusto Pinochet no Chile. Tais trabalhos mostraram um cruzamento necessário com o que se produziu na cultura de países vizinhos ao Brasil diante da revisão crítica destes países sobre regimes ditatoriais.

A violência é retratada em diversas obras, como nos vídeos de Cinthia Marcele (artista que recebeu menção honrosa na última Bienal de Veneza) e Tiago Mata Machado que assinam, em conjunto, uma trilogia informal com: “O século”, apresentado na Bienal de Istambul em 2013, “Rua de mão única”, que teve a première exibida no Festival de Cinema de Rotterdam também em 2013 e “Comunidade”. O tema também está presente na obra “Postcards from Brazil” de Gilvan Barreto, que revela faces ocultas de cartões postais massivamente divulgados pela Embratur, a Empresa Brasileira de Turismo, criada em 1966 para melhorar a imagem do regime militar brasileiro no exterior. 

A censura na arte é evidenciada na videoinstalação “Repetições” de Clara Ianni, que revisita “Arena Conta Zumbi” primeira peça de teatro contra o regime militar, produzida pelo Teatro Arena, e também em “Histórias que nosso cinema (não) contava” de Fernanda Pessoa em que a artista propõe uma releitura da história, com foco nos anos 1970, através de imagens e sons populares da época, considerados “pornochanchada”.

Priscila Arantes, Diretora Artística e Curadora do Paço das Artes, chama atenção para o assunto, abordado em outras ocasiões na instituição: “O Paço, por mais de uma vez, abordou a violência, o estado de exceção e a clandestinidade como, por exemplo, em 2014, quando apresentamos ‘Operação Condor’ do português João Pina, que investigava e documentava histórias de cidadãos sul-americanos afetados diretamente pelas ditaduras; e em 2016 com ‘Migrações’ em que Marcelo Brodsky, entre outros assuntos, trazia à tona suas memórias do regime político da Argentina e de seu exílio em Barcelona.”

Além dos artistas citados, obras de Débora Maria da Silva, Daniel Jablonski, Escola da Floresta, Fernando Piola, Fernanda Pessoa, Jaime Lauriano, Lais Myrrha, Rafael Pagatini, Romy Pocztaruk e Vitor César.

Em ano de eleições, a exposição pretende amplificar o debate público para questões de cunho político que, até o momento, aparentam não estar sendo debatidas de forma democrática, ampla e irrestrita. Vale, também, ressaltar que em 2018 completa-se cinquenta anos da instauração do AI-5, instrumento de lei e ordem, repressão e violência cujas conseqüências estão sublinhadas na sociedade brasileira, mesmo tendo sido revogada há quatro décadas. Se foi extinta em termos protocolares, seus instrumentos de ação e hábitos seguem vivos na violência cotidiana do estado e nas relações de poder em vigor. 

 

 

 

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