Que Barra | Ateliê 397, SP

28/05 à 30/06/2018 

 

Que barra é uma exposição que parte da necessidade de investigar a produção artística em relação ao contexto político e social da atualidade. O marco dos 50 anos de maio de 68 nos serviu de baliza para ampliarmos os parâmetros de reflexão de ambas instâncias. Uma certa semelhança entre esses dois momentos – 1968 e 2018 – vem sendo enunciada por intelectuais, militantes e também por artistas: sem dúvida, o golpe de 2016 nos permite traçar tal paralelo. O esvaziamento da política e a fragilidade do sistema democrático no Brasil tornaram-se ainda mais evidentes, deixando entrever também que ela mesma, a democracia, sempre foi para poucos. Tal como em 68, convivemos cotidianamente com a violência do Estado, seu autoritarismo e recusa em aderir efetivamente a pautas populares. No entanto, é visível que nas últimas cinco décadas houve avanços nas lutas por reconhecimento, apontando para um horizonte mais igualitário.

 

Nesse sentido, alguns trabalhos da exposição mostram como estão hoje alguns debates que ganharam o espaço público em 68, tais como a distribuição desigual de renda, a violência policial, as lutas feministas, a discussão sobre papéis sociais de homens e mulheres, a função social do artista, o papel dos novos meios de comunicação, o poder da imagem, entre outros. A exposição também buscou reunir trabalhos que investigassem como a própria narrativa histórica se constrói. São obras que questionam os parâmetros e medidas usados nessa construção e que propõem operações contrárias à ideia de síntese, levando em conta recorrências, ciclos, rupturas, avanços e retrocessos.   

 

A arte, para os personagens atuantes nas manifestações de 68, era vista e evocada como uma possibilidade de liberdade e potência transformadora, fundamental para a construção de uma sociedade emancipada. Se pensarmos a relação entre arte e vida – tomada por grande parte da produção da época como instâncias que poderiam se tornar intercambiáveis – os trabalhos dessa exposição reconfiguram muitas das expectativas enunciadas. Nas obras da exposição, há um constante esforço de apropriação do cotidiano, da realidade e da narrativa histórica, que denota por sua vez, a distância entre os dois e a impossibilidade de uma fluidez efetiva. A dissolução da arte na vida, hoje, aparece como ideia utópica, à medida que a própria ideia de revolução emancipadora parece se afastar do horizonte político.

 

Diante do desmantelamento explícito e direto a que assistimos, a produção aqui é pensada enquanto resistência – ainda que muitas vezes seja pela via da negatividade – sem necessariamente positivar ou aderir a bandeiras, movimentos ou engajamentos. Como Torquato Neto diria, já em 1970: é preciso não dar de comer aos urubus. É preciso sobreviver para verificar.  

 

 

 

 

Please reload